Águas subterrâneas em risco no Brasil

Pesquisa mostra que, em alguma regiões do país, os aquíferos não conseguem repor seus estoques Secas agravadas pela mudança climática, atividade agropecuária e desmatamento estão relacionados à baixa recarga do recurso natural

5.jun.2026 às 22h00

Área de recarga do aquífero Guarani, em Riberão Preto (SP) – Joel Silva/Folhapress

O Brasil tem o maior volume de água doce renovável do planeta, mas essa abundância se dá em conjunto com vulnerabilidades regionais e não torna o país imune aos efeitos do aquecimento global e de atividades produtivas.

A imensa parte da riqueza hídrica do país fica escondida. Cerca de 95% da sua água está em aquíferos (reservatórios naturais subterrâneos), e estima-se que esse estoque responda por 55% da demanda nacional.

O problema é que, como vem ocorrendo em escala global, já há regiões no Brasil que não conseguem repor essa água subterrânea. É o que mostra artigo publicado, nesta semana, por cinco pesquisadores brasileiros no periódico Science Advances.

Segundo o estudo, a altura média da recarga das águas subterrâneas no país em zonas de afloramento, entre 2002 e 2023, foi de 223 mm por ano, o que representa 12% da precipitação média anual (o quanto choveu por ano).

Na amazônia, mais úmida, há áreas em que a recarga vai de 300 mm a 800 mm. Já no Nordeste, de 0 até 100 mm, e no Centro-Oeste, de 100 mm a 300 mm.

Outro indicador relevante é a tendência de alta ou de redução da recarga ano a ano. Em zonas robustas do Centro-Oeste e do Sudeste, com ramificações que sobem até o Norte, verificam-se as categorias forte (−3,6 a −0,9 mm/ano²) e moderada (−0,9 a −0,25 mm/ano²) de queda.

Áreas e aquíferos com diminuição persistente coincidem com a expansão da agropecuária e estiagens recorrentes, que se agravam com a crise do clima.

Árvores reduzem a força de precipitações, e raízes abrem canais no solo. Assim, o desmatamento impacta a absorção da água das chuvas, que acaba sendo arrastada, em vez de penetrar lentamente no solo até os aquíferos.

Base de uma parcela expressiva das riquezas produzidas no país, o setor agropecuário, que depende de água em larga escala, deve combinar modelos de irrigação sustentável e eficiente com diversificação de culturas mais resistentes ao clima seco.

Além disso, governos precisam monitorar continuamente os aquíferos para proteger as áreas de recarga sensíveis de extrações desmedidas, promover reflorestamento e conter derrubadas para favorecer infiltração da chuva e combater poluição que contamina reservatórios. A recarga gerenciada de aquíferos, para complementar a natural, pode ser avaliada em alguns casos aplicáveis.

São ações necessárias para que o Brasil preserve esse recurso vital que, apesar de abundante em seu território, é finito.

editoriais

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/06/aguas-subterraneas-em-risco-no-brasil.shtml

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