Relatório mostra que a humanidade consome água além da capacidade de renovação de sistemas hidrológicos Até uma potência no setor hídrico como o Brasil sofre impactos; secas assolaram a amazônia em 2023-24; SP viveu crise hídrica em 2014-15
30.jan.2026 às 22h00

Leito seco do rio Solimões, em Tefé (AM) – Lalo de Almeida – 13.out.23/Folhapress
Relatório da Universidade das Nações Unidas divulgado no final deste mês afirma que o mundo entrou em “falência hídrica”. A expressão se refere ao balanço desse recurso natural, e, segundo os pesquisadores, as contas não fecham.
A humanidade não está gastando apenas os fluxos renováveis de água (rios, lagos, córregos, reservatórios e aquíferos rasos alimentados por chuvas, neve e granizo) com voracidade maior do que a capacidade de reposição —mais da metade dos grandes lagos do planeta estão encolhendo.
Mas até as reservas emergenciais (aquíferos subterrâneos, geleiras e ecossistemas que armazenam água) estão sendo sugadas.
Geleiras derretidas, após se acumularem por séculos e até milênios, não voltarão a crescer por décadas. O relatório estima que 70% dos aquíferos profundos estão em declínio de longo prazo.
O desmatamento impacta a absorção das chuvas e aumenta a erosão do solo, levando sedimentos para zonas úmidas (pântanos, brejos, várzeas e manguezais), o que contribui para o assoreamento desses sistemas —responsáveis pela modulação de vazões e proteção de estoques de água.
O aquecimento global promovido pela queima de combustíveis fosses piora a situação com eventos climáticos extremos. Além das secas, chuvas torrenciais escoam rapidamente pela superfície, ainda mais com a degradação de áreas verdes, em vez de abastecer mananciais ao penetrarem lentamente no solo.
O fenômeno é global. Até uma potência em recursos hídricos como o Brasil sofre seus impactos. Secas assolaram a amazônia em 2023-24; São Paulo viveu uma crise hídrica em 2014-15, e atualmente o nível do reservatório Cantareira ainda é arriscado.
Ademais, a escassez de água cria uma espiral nefasta, principalmente em países pobres, com agricultura menos produtiva, fome e desemprego, sem contar os inúmeros problemas de saúde.
Estima-se que estiagens severas e mais frequentes custem em média US$ 307 bilhões (R$ 1,6 trilhão) anualmente. Cerca de 4,4 bilhões de pessoas enfrentam falta de água durante pelo menos um mês por ano no mundo.
Deve-se medir continuamente quanto de água existe e quanto está sendo usado, além de proteger fluxos naturais e áreas de armazenamento. Manejo sustentável do recurso no agronegócio e nas indústrias é crucial, enquanto centros urbanos precisam ficar mais permeáveis a chuvas.
O relatório deixa claro que as ações de governos e do setor privado não podem se restringir a reações em crises temporárias.
editoriais
https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/01/um-mundo-mais-seco.shtml