José Marengo, reconhecido como um dos maiores especialistas em El Niño do país, diz que não basta se preparar para o presente, mas é preciso prevenir o futuro
Marengo: ‘Existem deputados que discordam de se incluir mudança climática no currículo escolar. É a maior burrice. Conhecer é, basicamente, salvar vidas’ — Foto: Gabriel Reis/Valor
Nascido no Peru e radicado no Brasil, o meteorologista José Marengo é reconhecido como um dos maiores especialistas em El Niño do país. O fenômeno, que ocorre sempre, é agravado pelo aquecimento global e potencializa desastres. “O El Niño afeta todos os setores. Não é mais só um fenômeno climático. É socioeconômico”, diz.
Coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, ele lembra do primeiro El Niño que viu, em 1972. “Cidades bonitas do Norte do Peru, onde nunca chovia, foram destruídas”, diz. Meteorologista, fez doutorado nos Estados Unidos sobre os impactos do fenômeno na Amazônia. “Sempre estive seguindo o El Niño por aí”.
É categórico: “Quase ninguém na América do Sul se vê livre do El Niño. Todos os países são afetados, todas as regiões, todos os setores”.
Membro do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima da ONU (IPCC) e um dos pesquisadores mais citados do Brasil, reforça a importância de se investir em prevenção – melhorar os modelos de previsão, monitoramento e alerta de desastres, informar rotas de fuga à população, ter água, alimentos, remédios e abrigos preparados. Fundamental, também, é ensinar sobre clima nas escolas e atualizar o ensino superior. “Tudo isso é prevenção, para agora e para o futuro, porque o El Niño continuará acontecendo”, diz. “Não basta liberar bilhões e achar que se combaterá o fenômeno. A natureza não se importa com dinheiro”. Veja trechos da entrevista que concedeu ao Valor:
Valor: O sr. estava no Rio de janeiro no vendaval do fim de julho?
José Marengo: Sim. Estava saindo da SBPC (a 78ª reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. O dia estava lindo. Quinze minutos depois, tudo mudou. Estava no meio da Ponte Rio-Niterói quando começou a ventar muito forte. Me contaram que a tenda onde aconteceu a SBPC parecia que voaria pelos ares. (A SBPC e a UFF informaram que as tendas foram evacuadas e os participantes encaminhados a áreas protegidas. Segundo as entidades, às 17h15, todos estavam abrigados, sem registro de incidentes ou colapso de estruturas. Leia ao final da entrevista o comentário completo da SBPC e da UFF)
Valor: Foi assustador?
Marengo: Muito. Foi uma experiência meteorológica completa. E o pior é que não houve nenhum alerta. Eu estava no táxi com o rádio ligado e a emissora não disse nada. Quando fecharam a Rio-Niterói, porque a ponte oscila, quem estava na SBPC não conseguia sair. A energia caiu, a internet sumiu. Foi o caos.
Valor: Mas não foi possível relacionar este evento ao El Niño?
Marengo: Não, esses eventos extremos sempre acontecem. Durou menos de meia-hora e foi algo regional, que aconteceu em São Paulo, Ubatuba, Angra dos Reis. O El Niño tem uma escala temporal diferente. Um evento como esse, de minutos de duração, dificilmente se associa a um processo de grande escala como o El Niño.
Valor: E as chuvas de dias atrás que desalojaram milhares no Rio Grande do Sul?
Marengo: Aí, sim. Quando ocorre um El Niño, a primeira região que sente as consequências no Brasil é o Sul, na primavera. As chuvas que caíram há poucos dias apresentaram um padrão que bate com o El Niño. Cada El Niño é diferente e o deste ano parece ter começado mais cedo. As Cataratas do Iguaçu cresceram nove vezes por causa das chuvas. Mas para vermos sinais na Amazônia e no Nordeste, temos que esperar até o verão.
Valor: O que sabemos do El Niño deste ano?
Marengo: O El Niño é um fenômeno atmosférico-oceânico. É o aquecimento das águas do Pacífico tropical, que se estende da costa da América do Sul até a Austrália. Em março, áreas de água quente começaram a aparecer no Pacífico tropical. Isso acendeu o sinal de alerta e o monitoramento foi intensificado. Olhávamos o monitoramento da NOAA, a Agência dos Estados Unidos para a Atmosfera e os Oceanos, e a cada mês havia avisos de que estava avançando.
Em julho, a NOAA avisou que o El Niño havia chegado. Os modelos mostram que este El Niño pode ser forte ou muito forte. Esse é o consenso. A última previsão da NOAA mostra que há 80% de chance de El Niño atingir intensidade muito forte no verão.
Valor: Quando ocorre o pico?
Marengo: Geralmente entre dezembro e janeiro, no nosso verão. Há impactos, não só no Brasil. No litoral norte do Peru e no Equador, onde nunca chove, começaria a chover. A temporada de furacões (no Caribe e EUA) pode ser mais fraca devido ao El Niño. E ocorre a mudança na circulação atmosférica na Amazônia e no Nordeste: as chuvas atrasam e são fracas, a estação seca se prolonga, aumentando o risco de incêndios -altas temperaturas e seca são ingredientes das queimadas. Mas os incêndios aqui são diferentes daqueles europeus.
Valor: Diferentes, como?
Marengo: O que há em comum é a combinação de calor e seca. Mas nos últimos anos, na Europa, há muitas ondas de calor e incêndios, independentemente do El Niño. Já no Sul da Amazônia e no Pantanal, os incêndios são associados ao El Niño. E as florestas são diferentes.
Se um país tem problema de inflação, o El Niño agrava o quadro, afeta todos os setores”
— José Marengo
Valor: O que quer dizer?
Marengo: A floresta amazônica é úmida. Mas o que está acontecendo é que durante períodos de seca, a umidade da floresta diminui e ela se torna combustível.
Aqui e na Europa os incêndios geralmente estão associados a atividades humanas. Aqui, agricultores preparam a terra com fogo e com a atmosfera seca, o fogo se alastra. Na França muitos incêndios foram relacionados a faíscas que saíam das torres e cabos de alta tensão. As causas não costumam ser raios. Mas o que estamos vendo na Europa agora é mais consequência do aquecimento global.
Valor: E aqui, também?
Marengo: Um dos agravantes do El Niño atual é que, além do aquecimento das águas do Pacífico, temos o aquecimento global. O El Niño amplifica os extremos climáticos, que são consequência do aquecimento global que aumenta todos os anos. O El Niño chega, funciona por um ano ou dois, e vai embora. Eventos climáticos extremos sempre acontecem, com ou sem El Niño. O El Niño não gera o desastre, mas o potencializa.
Valor: Afeta quais países?
Marengo: Todos. Toda a América do Sul é afetada. Na América Central, durante anos de El Niño tem menos furacões. Mas furacões são fontes de chuva, então, a tendência é um clima mais seco. Na América do Norte também há impactos. Na Índia, as monções são comprometidas. Na Austrália e no Sudeste Asiático, onde costumava ser chuvoso, durante o El Niño fica seco e incêndios acontecem. No leste da África há problemas de seca.
Valor: O que se pode esperar na América do Sul?
Marengo: A costa norte do Peru, que é árida, torna-se muito chuvosa. Quando eu ainda morava lá, no El Niño de 1983 e o de 1998, choveu tanto que se formaram lagos no deserto. Na América do Sul, a tendência é de mais chuvas na região Sudeste, o que pode afetar com mais chuva e neve os Andes no Chile e Argentina. Na Amazônia e no Nordeste, secas. Na Bolívia, menos chuva. Toda a América do Sul tropical fica mais quente que o normal. Em algumas regiões o clima fica quente e seco, o que favorece incêndios, e em outras, quente e úmido, o que favorece doenças. Quase ninguém na América do Sul se vê livre do El Niño.
Valor: Doenças como dengue?
Marengo: Sim. E como a qualidade da água fica comprometida, é possível ter doenças do aparelho digestivo e respiratórias, em função dos incêndios, e estresse térmico. O Brasil começou a estudar seriamente o impacto das ondas de calor que durante o El Niño podem ser mais fortes e alcançar a Amazônia e o Nordeste. Elas acontecem no Brasil todo, mas as áreas mais afetadas são o Sudeste e o Sul.
O efeito da onda de calor não acontece na hora, mas depois, com aumento de infartes, acidentes cardiovasculares, desidratação. Há mais internações em anos de El Niño. Agora começam estudos dos impactos das ondas de calor na saúde, agricultura, comércio. O El Niño afeta todos os setores. Não é mais um fenômeno climático. É um fenômeno socioeconômico.
Valor: Pode dar mais exemplos?
Marengo: Na agricultura: o El Niño não afeta apenas a produção, mas o transporte de produtos se os rios estão baixos. Ou o armazenamento porque em muitos casos a refrigeração vem da energia das hidrelétricas, mas quando esta energia se torna escassa por falta de chuvas, ligam-se termelétricas, que são mais caras e o preço dos alimentos aumenta. Nas feiras de rua os produtos estragam mais rápido e aumenta o desperdício. Se o país tem problemas de inflação, o El Niño piora o quadro.
Valor: Já tivemos El Ninõs muito fortes?
Marengo: Sim. O que observamos é que os impactos aparentemente estão aumentando -econômicos, na saúde, nos desastres. Estamos cada vez mais expostos.
Valor: Mais expostos por causa do aquecimento global?
Marengo: Sim, mas não só. Quando acontece um El Niño em um ano em que o sistema de saúde já está enfraquecido, piora a situação. Se temos problemas de inflação de alimentos pela escassez de fertilizantes com a guerra na Ucrânia ou de petróleo mais caro, pela guerra no Oriente Médio, o El Niño vem e agrava tudo.
Valor: É possível se preparar para uma coisa assim?
Marengo: Prevenção é o mais importante. A divulgação, talvez exagerada, de um “Super” El Niño chegando, bateu em todas as esferas de governo -municipal, estadual e federal. Fomos convocados em audiência no Congresso para explicar o fenômeno e o que esperar. O Amazonas e o Mato Grosso já têm brigadas prontas antes que o fogo comece. Isso é bom.
O governo liberou R$ 1,3 bilhão para combater os efeitos do El Niño. Temos bancos de alimentos prontos para socorrer a população. Mas tem que se investir sempre na melhora dos modelos de previsão e monitoramento, para agora e para o futuro, porque o El Niño continuará acontecendo. E ter planos de contingência nos municípios e Estados, medidas de proteção da população, sistemas de alerta de desastres, informar as rotas de fuga em áreas vulneráveis, ter abrigos prontos com água e alimentos para receber os afetados. Tudo isso tem que estar em funcionamento. Prevenção não é liberar bilhões agora e pensar que se vai impedir o El Niño. A natureza não se importa com dinheiro.
Valor: No Brasil, o que mais mata são os deslizamentos de terra, não?
Marengo: Sim, mas isso não depende só da chuva e do clima. Depende da vulnerabilidade das pessoas e da exposição das áreas onde moram. O El Niño é um deflagrador do desastre, mas o desastre não ocorre só pelas chuvas: depende de planos de governo, de urbanização, de preparar as cidades.
O mapeamento de municípios vulneráveis aumentou: estamos com 1.133 e queremos chegar a 1.900. Para isso tem que ter estudos, instrumentos e orçamento.
E treinar líderes comunitários. A percepção de risco dos desastres é importante. As pessoas estarem mais atentas se há uma chuva intensa, se moram próximos a morros. E sair de casa se a Defesa Civil mandar. No Japão, as pessoas sabem o que fazer em caso de terremoto desde crianças.
Valor: Teria que se pensar em educação ambiental no Brasil?
Marengo: É fundamental, sabemos que estamos expostos. Há deputados que discordam de se incluir mudança climática no currículo escolar, a maior burrice. Conhecer é basicamente salvar vidas.
E a educação superior também tem que se atualizar: psicólogos, engenheiros, urbanistas. Depois do desastre de 2024 no Sul, aumentou o número de feminicídios, depressão e suicídios nas comunidades afetadas. O El Niño deixou sequelas mentais e isso não se sabia antes. A mudança climática é uma mudança global. Tudo está afetado pelo clima: saúde, agricultura, esporte, turismo, economia.
* Comentário da SBPC e da UFF sobre o vendaval no Rio de Janeiro em 29 de julho:
Alerta e prevenção na Reunião Anual da SBPC
A entrevista com o professor José Marengo traz uma reflexão importante sobre a necessidade de o País estar preparado para eventos climáticos cada vez mais extremos. Gostaríamos de acrescentar que, no episódio ocorrido em 29 de julho, durante a 78ª Reunião Anual da SBPC, em Niterói, a Defesa Civil Municipal emitiu, por volta das 10h, alerta de ventos fortes a partir das 12h, aviso que permaneceu vigente ao longo do dia. O alerta mobilizou ainda uma atuação articulada entre a Defesa Civil Municipal de Niterói, o Corpo de Bombeiros e as instituições organizadoras da Reunião Anual, a SBPC e a Universidade Federal Fluminense (UFF).
A ventania começou por volta das 16h30, com intensidade excepcional. Diante do agravamento das condições, as tendas foram evacuadas e os participantes encaminhados à Arena Niterói, em frente ao campus Gragoatá, e a áreas protegidas nos prédios da UFF. Às 17h15, todos estavam abrigados, sem registro de incidentes ou colapso de estruturas. O episódio reforça justamente o que a entrevista defende: a importância do alerta, da prevenção e da articulação entre ciência, instituições e poder público diante de fenômenos meteorológicos extremos.
Francilene Garcia – Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
Antonio Claudio Lucas da Nóbrega – Reitor da Universidade Federal Fluminense (UFF)