Sônia Terra Ferreira foi uma das figuras mais emblemáticas da resistência ambiental no Norte Fluminense. Aos 81 anos, a filha do ex-deputado federal Alair Ferreira foi reconhecida como o coração e a voz do movimento SOS Atafona — uma associação de moradores e ambientalistas que se tornou o principal símbolo da luta contra a erosão costeira que ameaça, há décadas, o balneário de Atafona, distrito de São João da Barra, Rio de Janeiro.
Raízes profundas em Atafona
Nascida em Campos dos Goytacazes, Sônia cresceu cercada pelas histórias de seu pai, uma das figuras políticas mais influentes da região, e pela forte ligação de sua família com o litoral sanjoanense. Desde bebê, seu destino parecia entrelaçado com a areia e o mar. “Brinco que minha mãe colocou meu umbigo enterrado aqui na praia, na areia. Meu sentimento por Atafona é indescritível”, contou em uma entrevista recente, revelando uma relação quase espiritual com o lugar.
Durante sua juventude, foi eleita “Rainha do Atafona Praia Clube”, símbolo da vitalidade social que o balneário um dia teve. Décadas depois, viu o clube ruir, engolido pelo oceano. Da varanda da casa construída por seu pai nos anos 1970 — hoje ameaçada pelas marés — testemunhou a lenta tragédia ambiental que transformou o que era um paraíso de pescadores e veranistas em um cenário de ruínas.[1]
Da dor pessoal à causa coletiva
A vida de Sônia foi marcada por perdas e recomeços. Casada por 21 anos e mãe de três filhos, enfrentou um câncer agressivo nos anos 1990. A vitória sobre a doença reacendeu seu desejo de retornar a Atafona — um sonho que concretizou ao se curar. “Eu pensava que precisava ficar bem para colocar meus filhos no mundo e, aí sim, vir viver em Atafona.” Desde então, não mais saiu. De volta à praia de sua infância, transformou a dor pessoal em combustível para o ativismo.
Presidente da Associação SOS Atafona desde 2019, Sônia liderou um grupo que representa muito mais do que uma organização ambiental. Trata-se de uma frente de resistência de cidadãos comuns contra o esquecimento do poder público. A entidade nasceu de reivindicações comunitárias e evoluiu para um movimento com base científica e apoio institucional — articulando universidades, políticos e técnicos em torno de soluções concretas para o avanço do mar.
Sob a presidência de Sônia, o grupo protagonizou manifestações públicas, pressionou autoridades em Brasília e conquistou o início do Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA), uma etapa essencial para a execução de obras costeiras. “Já foram feitas inúmeras promessas, mas nenhuma solução foi colocada em prática. Agora buscamos diálogo direto com as autoridades — não dá mais para esperar”, afirmou em um ato público no início de 2025.
Uma ponte entre comunidade e poder público
Sônia tornou-se uma interlocutora respeitada entre moradores e instituições. Sua habilidade de abrir portas e costurar alianças levou a causa de Atafona ao centro de debates parlamentares e audiências públicas da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Em reuniões recentes na Presidência da República, representantes do SOS levaram pessoalmente dossiês sobre a situação do litoral, fruto do esforço liderado por Sônia e suas companheiras.
Para ela, a luta não é apenas física, mas simbólica. “Mais do que preservar casas ou ruas, trata-se de proteger uma identidade cultural, social e histórica. O que está em jogo é a continuidade de um modo de vida e a defesa da memória de gerações”, declarou, resumindo o sentido maior de sua jornada.
A trajetória de Sônia Terra Ferreira, também conhecida na comunidade como Soninha, já lhe rendeu homenagens, como a Medalha Narcisa Amália concedida pela Câmara Municipal de São João da Barra, em reconhecimento à sua dedicação à causa ambiental e social. Sua imagem segue como inspiração — uma mulher que fez da própria existência uma trincheira contra a erosão, literalmente e metaforicamente.
Hoje, enquanto as ondas seguem avançando, Sônia continua sendo o rosto sereno e firme de uma luta que ultrapassa fronteiras locais. Sua voz ressoa em universidades, nas redes internacionais de pesquisa sobre mudanças climáticas e nas orações de uma comunidade inteira. Em Atafona, onde o mar insiste em levar, ela insiste em permanecer — símbolo de fé, coragem e resistência.
Epílogo
Sônia passou mal durante o sepultamento de seu amigo e colaborador próximo, Geraldo Machado. O episódio ocorreu na manhã da quinta-feira (16/10), abalando profundamente a comunidade de São João da Barra.
Após sentir-se mal, ela foi socorrida por amigos e levada às pressas ao Hospital Ferreira Machado, em Campos dos Goytacazes. De acordo com nota emitida pela unidade hospitalar, Sônia sofreu um Acidente Vascular Isquêmico (AVE) e permaneceu internada em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) até o dia 27/10 quando foi transferida para o Hospital São José do Avaí, em Itaperuna..
A notícia de sua internação provocou uma onda de comoção em Atafona e nas redes sociais. Moradores, amigos e ambientalistas manifestaram solidariedade, destacando seu papel insubstituível na defesa da praia e do meio ambiente. O perfil oficial da SOS Atafona pediu orações e respeito à privacidade da família neste momento difícil.
No dia 09/11/2025 a família comunicou seu falecimento e, assim a mulher que há décadas desafiou as forças implacáveis do mar descansou de outra batalha — silenciosa, de resistência e fé. Para a comunidade que aprendeu com ela a nunca desistir, Sônia Terra Ferreira segue sendo o símbolo de uma causa maior: a esperança de que nem o oceano, nem a adversidade, possam apagar o amor por Atafona.
Descanse em paz Guerreira!
Abdo Gavinho em 09/11/2025