Nascida em Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, Sônia cresceu aproveitando o período de férias em Atafona, um distrito com cerca de 7 mil habitantes localizado no município de São João da Barra, a 38 km da sua cidade. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro quando tinha 18 anos, onde iniciou um curso de serviço social e, depois, trabalhou em empresas do pai em áreas desde a construção à revenda de automóveis ou aparelhos domésticos.
Casou-se, teve três filhos, e Atafona manteve-se presente no coração da família, mas principalmente no dela.
Em 1978, Sônia e o marido decidiram construir uma casa de veraneio naquela cidade que tanto amavam. Era uma casa grande, onde iam passar as férias, sempre com muito movimento, na companhia de primos e primas, cunhados e sobrinhos. Há 25 anos, mudou-se definitivamente para lá.
Hoje com 79 anos, aposentada e viúva, Sônia ainda vive em Atafona com sua filha, mas não na casa construída em 1978. Isso porque Atafona vem sendo engolida pelo mar. Na localidade, desde a década de 1970, o Atlântico vem avançando, fazendo com que, em intervalos de tempo cada vez mais curtos, residências, avenidas, comércios e outros estabelecimentos se tornem apenas memórias.
Quando construímos a casa, em 1978, nós não víamos o mar. Havia dois quarteirões na frente da casa e a avenida Atlântica asfaltada, com calçadão e um pedaço enorme de areia até chegar, enfim, à praia. Não imaginávamos que um dia ele chegaria à nossa casa.
Bem na nossa frente, existia o único prédio de Atafona, o prédio do Julinho, de quatro andares. Esse prédio, que eu vi ser construído, foi derrubado pelo mar em 2008. Quando caiu, meus filhos já começaram a falar que eu deveria sair da minha casa. De certa forma, os escombros protegiam a minha casa, mas o mar vinha avançando lentamente.
Eu acompanhava o estado das marés como se eu fosse pescadora, porque pensava em continuar ali. Mas fiz um compromisso com meus filhos: quando o primeiro pedaço do muro da casa caísse, eu sairia. E em 2019 aconteceu. Foi minha primeira experiência de perda verdadeira mesmo, material, real, para o mar.
Eu estava na varanda do meu quarto quando a minha vizinha da frente, que também perdeu sua casa, me ligou pedindo que filmasse a situação do mar, que batia muito na lateral da casa. O muro já estava com a sapata fora, sem sustentação, porque o mar vai tirando a areia que fica por baixo do terreno e deixando a construção oca. É como morar em um castelo de areia. Então, eu fiz a filmagem no telefone, enviei para ela e quando levantei a cabeça, vi a água entrando pela parte do muro que tinha caído. É uma coisa terrível, porque parece que o oceano inteiro está entrando dentro da sua casa.
Para impedir o processo, nós até pensamos em colocar pedras na frente do muro, mas ia prejudicar os vizinhos, ainda que eu me protegesse um pouco. Porque o mar não deixa de bater, ele apenas vai para o lado. Chegamos a colocar alguns tapumes com telhas grandes de ferro para desacelerar o processo. Meu quarto, que era o mais próximo do mar, já estava com uma rachadura enorme de infiltração na parede. Quando o tapume encostou na casa, não tinha mais o que fazer. Então, como tínhamos uma casa pequena atrás, onde antes ficavam os caseiros, eu mudei para lá.
O mar estava avançando cada vez mais e era muito doloroso ver minha casa ser destruída aos poucos. Então, em 2022, junto com meus filhos, decidi demolir a casa. Foi uma época muito difícil. Eu tinha acabado de descobrir um câncer nos ovários e precisei tirar os dois, não estava podendo levantar da cama. Foram três meses para demolir.
Desde então, continuei morando na casa pequena de trás, até outubro deste ano. Tive que sair de lá também porque começou a entrar muita areia. O vento nordeste aqui já é naturalmente forte, mas agora está muito. Lembro de quando ainda morava lá, eu passava a mão no meu rosto e sentia muita areia. Algumas dunas começaram a se formar na rua e uma delas encostou no muro da entrada da casa. Então formou outra duna enorme no canteiro do jardim. Não consigo mais abrir o portão social, e o da garagem abre só um pouco, porque tem muita areia no trilho, nenhum carro consegue entrar. Eu havia pedido para um trator ir até lá tirar a areia, mas o moço falou que eu estava jogando dinheiro no lixo, porque cada vez que tirava, ventava novamente e formava a duna de novo.
Hoje eu consigo falar melhor sobre isso, mas o processo em si foi muito doído. Já era assim quando eu estava acompanhando o sofrimento das pessoas, da comunidade, dos amigos que foram perdendo suas casas. Fui vivenciando isso e vendo o sentimento. Mas na hora que acontece com nós mesmos, balança tudo. É um turbilhão de emoções. Comecei a lembrar dos meus filhos pequenos, da minha família e de todos que conviviam ali conosco. Não é o material que senti que perdi, mas sim os momentos que tive naquela casa. Não é possível refazer o contexto em outro lugar, simplesmente ir para outra casa e construir outra história.
Mas apesar do sentimento de perda, eu me sinto uma pessoa muito feliz. Vivo com os meus filhos e netos e, aqui em Atafona, tenho muitos amigos. As relações aqui são muito puras. As pessoas gostam de você pelo que você é, e não pelo que você tem. Eu tenho uma neta de 13 anos que gosta muito de sentar e conversar comigo. Um dia ela me perguntou: “Vovó, como você faz para ter essa paz assim que tudo sempre está bom pra você?” Eu respondi a ela que vamos aprendendo durante a vida com as coisas que Deus nos dá.
Minha ligação com Atafona é uma coisa tão forte, que quando eu estava no Rio, ficava muito estressada no meio de todo aquele movimento. Então eu dizia: “Preciso recarregar minha bateria em Atafona” – e vinha. Quando chegava aqui, já deixava o sapato dentro do carro e ia caminhar na praia. Em dois dias que eu ficasse aqui, geralmente nos sábados e domingos, eu já voltava outra pessoa, renovada. Tenho essa coisa, assim, muito forte com Atafona. Acho que é algo espiritual e emocional.
E não sou só eu, todo mundo que mora ou tem casa aqui continua amando Atafona, apesar desse desastre. Tem um bem-estar, uma coisa íntima, uma felicidade, uma alegria tão transbordante quando se está aqui, que ninguém quer ir embora. Algumas pessoas que vão perdendo suas casas não querem sair e ficam morando nos escombros, o que é um perigo.
Não ficamos revoltados, apenas tristes, porque também achamos que poderia ser feito algum trabalho de contenção, como tem em outros estados e cidades. Até existem alguns estudos feitos aqui, mas a prefeitura diz que é muito caro para fazer mais. Nós temos um movimento chamado SOS Atafona, no qual eu estou atualmente na presidência. Procuramos ir até as autoridades e conversar de forma pacífica.
A gente continua tendo esperança de que algo seja feito aqui. Mas, de certa forma, sabemos que a culpa é nossa, como seres humanos, porque não cuidamos do meio ambiente como deveríamos. Historicamente, os meses de março e agosto eram épocas de ressaca aqui, e nós já sabíamos que o mar ia se aproximar. Mas hoje em dia não é assim. Pode ser a qualquer momento.
Sônia Ferreira, conforme contada a Júlia Mendes
Atafona, Rio de Janeiro, Brasil