O desabafo da Presidente do SOS ATAFONA

Entre Promessas e o Mar: A Voz que Não se Cala na Luta por Atafona


A voz dela carrega o peso da areia que se perde e a maresia da frustração. Quando a presidente do SOS ATAFONA fala, não ouvimos apenas uma líder comunitária, mas uma combatente que percorre os corredores do poder público com a dignidade ferida e a esperança teimosa de quem se recusa a desistir. O desabafo dela é o retrato de uma luta que parece tão implacável quanto o mar que avança sobre a sua cidade.


No centro de tudo, um pedaço de papel que vale um futuro: o edital. Em abril do ano passado, uma luz se acendeu. A licitação para o Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) – o primeiro passo concreto para salvar Atafona – finalmente iria acontecer. Mas a luz se apagou. O edital foi embargado, questionado, e a promessa de um novo documento se perdeu no tempo.


“E isso nós estamos em agosto e até hoje não foi feito”, ela desabafa, e em sua fala sentimos o cansaço de quem já bateu em todas as portas. “A gente fica, assim, literalmente com o pires na mão”.


É uma imagem poderosa. A comunidade de Atafona, representada por ela, mendigando por atenção, por uma resposta, por uma ação que deveria ser uma prioridade. Ela nos leva em sua peregrinação: da Secretaria de Meio Ambiente à Diretoria de Licitações, chegando até o secretário executivo da prefeita. As respostas, quando vêm, são vagas, protelatórias.


A mais dolorosa foi a promessa feita no dia 27 de julho por Circe, a diretora de licitação. “A senhora pode ficar certa que vai sair ou na sexta-feira ou na segunda-feira”, ela garantiu. A comunidade respirou aliviada. Por um instante, a burocracia parecia ter cedido à urgência da vida real. Mas a sexta-feira passou, e a segunda também. O silêncio que se seguiu foi mais ruidoso que qualquer tempestade.


“E aí a gente começou a brincar de gato e rato, a gente não conseguia ser atendido”, conta, com a voz embargada de quem se sente desrespeitada. “Isso aí é muito ruim, porque a gente não está brincando. A gente está fazendo as coisas com respeito.”
Mas na política, como no mar, as marés podem mudar. Um fio de esperança surgiu na Câmara dos Vereadores. Um convite da presidente da Casa, Sonia, e o apoio do vereador Analiel Vianna, que levantou o assunto em plenário, mostraram que a luta não é solitária. “Foi muito bom, porque cada vez mais tem gente começando a nos ajudar”, ela admite, revelando que a persistência começa a agregar novos aliados.


A luta dela não é um antagonismo, como faz questão de frisar. Não é uma briga com a prefeitura ou com a Câmara. É uma batalha por Atafona. É o clamor por um futuro sustentável, pela mitigação de uma tragédia anunciada e, acima de tudo, pela dignidade dos moradores do 2º Distrito.


A voz dela, ecoando a de tantos outros, segue firme. Não é um ataque, é um desabafo. É um pedido de socorro. É a certeza de que, enquanto houver luta, haverá esperança na beira do mar.

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