Intervenções buscam mitigar efeitos da erosão e aumentar o tamanho das faixas de areia
Quatro municípios de Santa Catarinaestão com projetos de alargamentos de praias em andamento, previstos para serem finalizados em 2026. Balneário Piçarras, Itapema, Navegantes e Itapoá apostam na intervenção para fortalecer a proteção costeira, atrair turistas e movimentar a economia. Juntos, os investimentos somam R$ 470 milhões – uma das obras inclui trabalhos em dois portos.
A engorda das praias é uma estratégia comum, garante Elaine Goulart, professora do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg). Além de outros pontos do litoral catarinense, como em Florianópolis e Balneário Camboriú, municípios do Ceará, Pernambuco, Alagoas, Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro realizaram ações semelhantes.
— Essas obras servem para aumentar a largura da praia e podem ser feitas com dois objetivos. Um é para a recreação e turismo mesmo, porque pode ser que a praia seja naturalmente estreita e muito procurada. Mas para as que estão sofrendo o processo de erosão, esse método serve para devolver (a areia) à praia e para proteger o que está atrás, como estradas e urbanizações, contra o mar e a ressaca — explica Elaine.
A especialista acrescenta que a erosão costeira pode fazer parte de um processo natural, já que o sedimento que compõe a praia está em constante movimentação pela ação das ondas. Em determinadas áreas, a perda de areia supera o acúmulo, alterando o formato da faixa litorânea. Em outros casos, fatores como as mudanças climáticase o aumento do nível do mar intensificam o fenômeno.
Obras podem mudar características das praias
O alargamento da praia é feito por meio de dragas, embarcações ou máquinas específicas que retiram sedimentos de uma jazida localizada no fundo do mar ou em área terrestre autorizada. O material é transportado por tubos ou caminhões até a praia, depositado e espalhado para ampliar a largura da faixa de areia. As ondas ficam responsáveis por redistribuir e organizar o sedimento.
— A extração da areia é uma atividade bastante impactante para a região de onde essa areia está saindo. Se for debaixo da água, vai impactar na fauna que vive naquele ambiente. Pode ter alterações nas correntes e nas ondas — afirma a professora da Furg.
Outro aspecto destacado por Elaine é com relação à característica da areia, “porque nem toda é igual”.
— Se fazem um engordamento com um sedimento muito diferente do original, pode mudar completamente as características da praia e ter um impacto na biota também — alerta.
Se o sedimento transportado for mais grosso que o original, a praia pode ficar mais íngreme. Já se o sedimento for mais fino que o original, a água pode ficar mais escura. A depender do estilo de areia adicionado, as ondas ficam mais fortes. Além de impactar os organismos que vivem na região, as alterações podem afetar a percepção das pessoas sobre a praia, diz Elaine.
O avanço das obras no litoral catarinense
Balneário Piçarras
Localizada a poucos minutos de Penha, cidade do parque Beto Carrero World, Balneário Piçarras tem cerca de 27 mil habitantes e é uma das localidades brasileiras que receberam o selo de Bandeira Azul. No dia 1º de agosto, o município lanço edital para a realização da quarta ampliação da Praia Central, em um trecho de 2 quilômetros.
— Todo ano nós sofremos com ressacas, que já levaram até o calçadão. No ano passado, nós tivemos prejuízo em um trecho de 200 metros, onde a ressaca arrancou o nosso beco. O aterro hidráulico previne que o mar venha e que a erosão gere mais prejuízo — afirma Tiago Baltt, prefeito do município.

As outras intervenções foram feitas em 1998, 2008 e 2012. Segundo Elaine, é normal que essas obras necessitem de manutenção com o tempo, uma vez que o processo de erosão é constante. Baltt defende que, no contexto local, o ideal seria que os alargamentos fossem refeitos a cada oito ou 10 anos.
O objetivo é de que o engordamento, que também beneficiará o turismo na região, seja finalizado até abril do próximo ano. O valor estimado de investimento é de R$ 50 milhões, provenientes do Fundo de Manutenção da Praia (Fumpra), criado em 1999 para garantir recursos para as novas obras de alargamento da faixa de areia.
Itapema
Com cerca de 75 mil habitantes, Itapema é um dos destinos procurados por veranistas em Santa Catarina. O município está em processo para finalizar o licenciamento ambiental e começar a obra de alargamento da faixa de areia da Meia Praia no ano que vem, após a temporada de verão.

— Os estudos apontaram a questão das erosões. Foi contratado, em 2016, o estudo de proteção costeira, em que apontaram a necessidade de fazer essa recuperação da faixa de areia. Também queremos incentivar a ocupação do espaço público, que é a praia, e a mobilidade urbana, porque vamos dar uma ampliada no nosso calçadão para passar veículos — justifica Marcelo Correia, secretário de Governo e Infraestrutura.
O valor previsto para a obra é de R$ 50 milhões, que poderão ser oriundos de recursos estaduais, outorgas ou operações urbanas. Correia defende que isso será definido mais perto da finalização da etapa de licitação.
Navegantes
A quase 40 quilômetros de distância de Balneário Camboriú, Navegantes, com 86 mil habitantes, é outro município que planeja a ampliação de uma faixa de areia. O edital, lançado pela primeira vez no ano passado, vai ser republicado no final de agosto. A previsão do prefeito Libardoni Fronza é de que a obra inicie ainda em 2025.

— A prioridade maior é a proteção costeira. Nós temos épocas de ressacas aqui, em que a maré acaba invadindo a rua e nos traz preocupação com relação aos prédios e a própria avenida beira-mar. Automaticamente, o alargamento da faixa de areia também vai trazer turistas para cá, melhorar o ambiente e a qualidade de vida. Deve trazer mais movimento na economia, facilitando para os donos de restaurantes e ambulantes — defende.
O engordamento da praia será feito em trecho de 2,3 quilômetros, entre a foz do Rio Gravatá e o Rio das Pedras. A faixa de areia ficará com 90 metros de extensão inicialmente e, após a acomodação do solo, estima-se que permanecerá com 70 metros. Serão usados 380 mil metros cúbicos de areia, vindos de uma jazida subaquática.
— Acredito que o valor vai ficar aproximadamente na faixa de uns R$ 45 milhões. Os estudos falam que a manutenção dessa faixa de areia tem que ser nos próximos cinco anos, aproximadamente, devido à dinâmica do mar aqui em Navegantes. Então, a intenção é depois fazer a manutenção — acrescenta Fronza.
Itapoá
Com pouco mais de 30 mil habitantes, Itapoá, no norte de Santa Catarina, deverá ter a obra mais custosa, com um investimento previsto de R$ 324 milhões. Isso porque o alargamento da faixa de areia só será possível devido à dragagem do canal externo da Baía da Babitonga, obra de infraestrutura que visa realizar o aprofundamento e aumentar a capacidade dos portos de Itapoá e de São Francisco do Sul.
— A origem dessa obra é o aprofundamento e o alargamento do canal de acesso externo aos portos da Baía da Babitonga. A areia retirada dessa obra inicial, ao invés de ser descartada em alto mar, vai ser utilizada para alimentar uma parte da orla de Itapoá — explica Rafael Brito, secretário municipal de Meio Ambiente.
Segundo Brito, há um déficit na balança sedimentar: com as movimentações dos portos e das ondas, a praia de Itapoá perde mais areia do que ganha. Por conta desse processo erosivo constante, a obra de alargamento precisará de manutenção no futuro, como em outros locais.

— O valor é porque quatro quintos dessa obra é por conta da outra parte, e não da alimentação da orla propriamente dita. O solicitante do licenciamento é o Porto de São Francisco do Sul e quem está pagando, inicialmente, é o Porto de Itapoá. A forma de pagamento se dará através da não cobrança de taxas do governo estadual de Santa Catarina, o detentor da jurisdição da Baía da Babitonga — acrescenta o secretário.
A obra de dragagem do canal externo da Baía da Babitonga tem previsão de início para setembro deste ano.