Com menos de 30% da vazão ideal, o Rio Paraíba do Sul não consegue conter a intrusão salina, forçando interrupções no abastecimento de água potável e ameaçando o futuro do município.
A situação hídrica em São João da Barra foi classificada como “dramática e crescente” pelo Diretor do Comitê de Bacia da Região Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul João Gomes de Siqueira. O município, localizado na foz do Rio Paraíba do Sul, enfrenta uma crise severa causada pela vazão criticamente baixa do rio, que atualmente opera com menos de 200 metros cúbicos por segundo (m³/s), muito aquém dos 700 m³/s considerados ideais. Essa condição, descrita por Siqueira como “a morte do rio”, tem consequências diretas e graves para a população.

O efeito mais devastador da baixa vazão é a intrusão salina, um fenômeno no qual a força insuficiente da correnteza do rio permite que a água do mar avance continente adentro. Em São João da Barra, o problema é que durante a maré alta, a água salgada avança até 10 quilômetros pela foz do Paraíba, contaminando o ponto de captação de água da CEDAE e forçando a interrupção do abastecimento para todo o município. Medições realizadas pelo INEA no pico da crise hídrica de 2015 confirmaram que o avanço da cunha salina atinge pelo menos 8 quilômetros da foz.
“A maré é alta e a vazão é baixa, a intrusão salina avança”, explica o professor João Gomes, cujo comitê monitora a situação diariamente. Ele reafirma que o poder público tem a obrigação de garantir o abastecimento, mas a solução definitiva é complexa.
Soluções de Engenharia e Projetos Estruturais
Duas soluções de engenharia, consideradas mais imediatas, foram propostas para resolver o problema de abastecimento. A primeira, de 2014, foi a destinação de R$ 1,2 milhão de recursos do CEIVAP para a construção de um poço artesiano como “solução do momento”. A segunda, e mais estimulada pelo comitê, seria a transferência da estação de captação de água para um ponto 16 quilômetros rio acima, na região de Barcelos, onde a água permanece doce. Apesar do projeto existir desde 2016, ele nunca foi executado, nem o poço foi construído. “É só uma questão de engenharia. Mudar o local, a tubulação, e certamente esse local de tratamento de água (…) em São João da Barra ficaria resolvido”, afirma Siqueira.
No entanto, a solução definitiva para a saúde do rio e para conter o avanço do mar de forma natural é mais ambiciosa. O comitê possui um estudo para a construção de reservatórios de água nas regiões montanhosas de Minas Gerais, como nas bacias dos rios Pomba e Muriaé, onde o volume de chuvas é maior. A estratégia consiste em “guardar a água da chuva” que hoje causa enchentes, armazenando-a em grandes reservatórios, e liberando-a durante os períodos de seca.
“Para mitigar a baixa vazão na foz, precisa reservar água em algum local onde chove muito”, defende Siqueira. Essa ação aumentaria o fluxo do Paraíba do Sul, permitindo que o rio “brigasse com o mar” e recompusesse sua função natural, garantindo que o abastecimento humano em qualidade e quantidade seja assegurado de forma sustentável. Projetos de recuperação de nascentes e plantio de árvores também estão em execução, mas seus efeitos em larga escala podem levar séculos. Enquanto isso, a população local segue à mercê da maré e de um rio que perde sua força.
OBS.: No dia 04/09/2025 a Presidente do SOS ATAFONA Sonia Terra Ferreira e seu Diretor Executivo Abdo Gavinho estiveram reunidos na sede do CBH-BPSI Comitê de Bacia da Região Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul com o Diretor João Gomes de Siqueira e equipe. Essa matéria foi produzida pelo SOS ATAFONA a partir das explicações apresentadas.
