Praias de Copacabana, Ipanema e Leblon podem perder maior parte da faixa de areia; entenda por que

Estudo indica que praias de Copacabana, Ipanema e Leblon perderão grande parte de faixa de areia; governo diz monitorar impactos

As praias de Copacabana, Ipanema e Leblon, cartões-postais no Rio de Janeiro, podem perder a maior parte da sua faixa de areia até o fim do século, projeta um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que estima aumento médio de 78 centímetros no nível do mar na região da Baía de Guanabara diante dos efeitos das mudanças climáticas.

O resultado encontrado está na média global do aumento do nível do mar, que varia entre 28 e 98 centímetros, segundo o Quinto Relatório de Avaliação do IPCC, painel das Nações Unidas que reúne cientistas que analisam a crise climática.

O governo estadual afirma monitorar os impactos climáticos e prevê medidas para a adaptação do ecossistema local aos impactos (leia mais abaixo).

Segundo Raquel Toste, pesquisadora do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia da UFRJ e uma das autoras do artigo, Copacabana pode perder cerca de 100 metros de faixa de areia, enquanto Ipanema e Leblon devem encolher aproximadamente 80 metros cada.

A pesquisadora explica que a perda de faixa de areia estimada é simplesmente pelo aumento de inundação e que não foi investigado a perda de sedimentos e a erosão costeira.

“É um resultado das mudanças nas correntes, no nível do mar, que fui regionalizando e observando na costa do Rio de Janeiro. É praticamente resultado das mudanças termodinâmicas que vamos ter no oceano”, descreve.

Além da expansão e persistência das inundações costeiras em importantes destinos turísticos do Rio, o estudo mostra que a elevação do nível do mar pode antecipar a possível perda de áreas remanescentes de manguezal.

É o caso da Área de Preservação Ambiental (APA) de Guapimirim, na Baía de Guanabara, que também corre o risco de ficar submersa. Criada em 1984, a APA é caracterizada por proteger os manguezais remanescentes da região e abrange os municípios de Magé, Guapimirim, Itaboraí e São Gonçalo.

Em condições naturais, diz a especialista, manguezais e vegetações costeiras poderiam se deslocar para áreas próximas, acompanhando a subida do nível do oceano. No entanto, a intensa urbanização em torno das orlas dificulta esse processo, agravando o impacto.

O estudo utilizou um cenário considerado “não catastrófico”, segundo a pesquisadora. “É um cenário que considera ainda alguma ação”, explica, citando medidas como o corte das emissões de gases do efeito estufa, a transição para fontes de energia mais limpas e o controle do desmatamento.

Perspectiva pode ser ainda pior

Para Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o horizonte pode ser ainda mais problemático. Segundo ele, a modelagem de cenários futuros parte de dados do passado e , com o ritmo acelerado das mudanças climáticas, os modelos demoram a captar essa tendência, resultando em projeções mais otimistas que a realidade.

No ano passado, um relatório da Unesco – órgão das Nações Unidas voltado para a educação – apontou que a taxa de aquecimento dos oceanos dobrou em 20 anos, atingindo em 2023 um dos maiores avanços desde 1950. O aumento do nível do mar é uma das consequências diretas desse aquecimento.

Christofoletti, também co-presidente do Grupo de Especialistas em Cultura Oceânica da Unesco, destaca que os impactos variam de região para região e estudos como o da cientista da UFRJ ajudam a dimensionar o impacto local. As ressacas, por exemplo, sempre existiram. Mas hoje são mais frequentes e intensas.

Nas regiões próximas à linha de costa, alerta o professor, é necessário rediscutir a urbanização e ocupação do solo. “Não há engenharia que vai conter a força de 70% do planeta, que são os oceanos”, enfatiza.

Estado diz monitorar impactos e prevê centro integrado

Em nota, a Secretaria Estadual de Ambiente do Rio afirma acompanhar estudos sobre mudanças climáticas e seus efeitos no território nacional e estadual, promovendo discussões científicas sobre a pauta.

A pasta diz que está elaborando planos de Adaptação e Descarbonização/Mitigação a partir do Programa Rio Clima, em parceria com a UFRJ. Está em desenvolvimento também uma plataforma de monitoramento das vulnerabilidades climáticas no Estado.

Sobre ações específicas naquela área, a secretaria diz que está desenvolvendo o Centro Integrado de Gestão da Baía de Guanabara, que reunirá uma equipe técnica para coleta de dados, análise, engajamento social e apoio à tomada de decisão do governo.

Também é previsto um mapeamento de campo para “identificar as atividades econômicas” desenvolvidas no litoral, de forma a ordenar a chamada “economia azul”.

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