FOLHA NO AR -João Gomes Siqueira Diretor do Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul – 20/08/2025
Transcrição por IA de áudio de parte da entrevista e adaptado para texto jornalístico.
Com menos de 30% de sua vazão normal, o avanço do mar impede a captação de água potável e coloca o futuro da região em xeque. A retomada de um estudo para construção de reservatórios surge como a principal esperança.
SÃO JOÃO DA BARRA, RJ – Um alerta severo foi emitido sobre o futuro hídrico da Bacia do Baixo Paraíba do Sul. Em entrevista, o Diretor do Comitê Hidrográfico local, João Gomes Siqueira, classificou a situação como “dramática” e crescente, afirmando que a insegurança hídrica “é o que assola as nossas noites”. O problema central é a vazão criticamente baixa do rio, que hoje opera com menos de 200 metros cúbicos por segundo (m³/s), muito abaixo dos 700 m³/s considerados ideais.
A condição, que Siqueira descreve como “a morte do rio”, tem consequências diretas e diárias para a população, especialmente em São João da Barra. A força insuficiente da correnteza do rio não consegue mais conter o avanço da água do mar, fenômeno conhecido como intrusão salina. Duas vezes ao dia, com a maré alta, a água salgada avança até 10 quilômetros foz adentro, forçando a CEDAE a interromper a captação de água e comprometendo o abastecimento de todo o município.
“Essa é uma questão real e técnica, não política”, enfatizou Siqueira, apontando para as causas históricas e climáticas da crise. Há 50 anos, uma decisão governamental desviou 70% da água do Paraíba do Sul para garantir o crescimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. “A Baixada Fluminense e a Barra da Tijuca não existiriam como hoje sem essa transposição”, explicou, “mas essa água faz falta a nós aqui”.
Além do desvio, as mudanças climáticas intensificam o problema, com estudos apontando para uma diminuição contínua da vazão do rio. Os impactos vão além da torneira seca. A alteração do equilíbrio entre água doce e salgada ameaça destruir o ecossistema local, incluindo os manguezais, e altera toda a biota, afetando a pesca e a vida aquática. Problemas de qualidade da água, como o recente surgimento de geosmina, também são potencializados pela baixa vazão.
A Solução Pode Estar no Passado
Apesar da gravidade do cenário, Siqueira apresentou uma luz no fim do túnel. A principal esperança para reverter o quadro está na retomada de um grande estudo realizado pela Agência Nacional de Águas (ANA) entre 2007 e 2008. O projeto, que mapeou pontos estratégicos para a construção de reservatórios em Minas Gerais, foi engavetado quando as chuvas da época afastaram a preocupação com a seca.
“Nós vamos retomar esse estudo da ANA (…) e mostrar os pontos de reservação de águas que devem ser feitos”, garantiu Siqueira. O objetivo é que esses reservatórios possam armazenar água durante os períodos chuvosos para liberá-la de forma controlada durante a estiagem, garantindo assim uma vazão mínima e estável no Baixo Paraíba do Sul. Essa medida, segundo o diretor, seria capaz de conter a intrusão salina e assegurar o abastecimento contínuo para São João da Barra e outras cidades da região.
O Comitê Hidrográfico também trabalha em outros dois projetos paralelos para enfrentar a crise. Para João Gomes Siqueira, a implementação dessas soluções é fundamental para garantir não apenas a segurança hídrica atual, mas o futuro das próximas gerações. “Essa insegurança hídrica vai bater à porta das nossas crianças daqui a pouco, porque ela é crescente”, alertou.