Processo erosivo ameaça casas, ruas e ecossistemas; ações humanas e mudanças climáticas intensificam o processo
O avanço do mar tem transformado profundamente a paisagem da região da Ponta da Praia em Ilha Comprida, no litoral de São Paulo. Trechos de areia desaparecem, ruas e casas ficam mais próximas da linha d’água, e o ecossistema local passa por alterações significativas. Pesquisadores monitoram o fenômeno, alertando para a combinação de fatores naturais, ação humana e mudanças climáticas que tornam o problema mais complexo e preocupante.
Segundo a oceanógrafa Leticia Schabiuk, Ilha Comprida possui características geográficas que a tornam mais vulnerável à erosão. “Essa parte do litoral de São Paulo é naturalmente mais dinâmica”, explica. No entanto, ela aponta que, além das causas naturais, a ação humana também fez com que o processo se acentuasse.
O canal do Valo Grande, ligado ao Rio Ribeira de Iguape e construído no século XIX, afetou profundamente a região. “Ele não era largo desse jeito há 200 anos”, apontou. Ela explica que, na época, o rio foi expandido artificialmente com o objetivo de facilitar o escoamento de produtos agrícolas na cidade.
Essa alteração impactou não só a Ponta da Praia, como também a Praia do Leste, em Iguape – cidade vizinha. De acordo com Leticia, o Rio Ribeira é dinâmico e possui um aporte fluvial muito intenso, fatores que explicam os municípios serem classificados com risco “muito alto” de erosão, segundo o Mapa de Risco de Erosão Costeira do Estado de São Paulo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA).
Esses fatores, inclusive, diferenciam o processo erosivo da região com o sofrido na Baixada Santista. “Tem o canal do porto de santos, que também é um canal com grande aporte fluvial, mas ele não chega a ser tão dinâmico quanto a região de Ilha Comprida”, explica
Além da ação histórica no canal, a baixa elevação do terreno em relação ao nível do mar e a ocupação desordenada contribuem para que o avanço do mar seja mais rápido no local. A especialista reforça que a retirada de dunas e da vegetação de restinga — área de transição entre a praia e a Mata Atlântica — para construção civil acabam “aumentando as chances dessa erosão acontecer”.
Mudanças climáticas intensificam o fenômeno
De acordo com a oceanógrafa, as mudanças climáticas têm amplificado a ação natural do mar. “As chuvas acabam sendo mais fortes, os períodos de frio acabam sendo mais intensos e, consequentemente, os períodos de calor também acabam se intensificando”.
O aumento da temperatura combinado a eventos extremos, como ressacas e tempestades mais frequentes, eleva o risco para moradores e ecossistemas. “Esse processo era, tecnicamente, natural. O problema é que, devido à industrialização e à emissão de gases do efeito estufa, essas mudanças têm acontecido mais rápido e com maior intensidade”, ressalta.
As consequências para quem vive na região são imediatas. A oceanógrafa observa que, quando houver episódios de ressacas ou grandes passagens de frente fria, as ondas e o nível do mar ficam ainda maiores. Como consequência imediata, ela aponta a perda de território, com a invasão de casas e bairros
Alterações no ecossistema local
Além das construções, também há ameaça ao ecossistema. Na Enseada da Baleia, em Cananéia, espécies invasoras, como as ostras exóticas, passaram a ocupar espaços antes dominados pela fauna e flora nativas em decorrência de mudanças causadas pelo processo erosivo.
Na Ponta da Praia, os efeitos podem ser semelhantes. “A morfodinâmica está relacionada com o ecossistema. Então, uma coisa com certeza pode influenciar a outra”, explica.
Caminhos para mitigação e prevenção
Apesar do cenário desafiador, Leticia aponta medidas que podem reduzir os impactos. “A primeira coisa é entender o que está acontecendo. Parar com o negacionismo e saber dos riscos que tem, não só agora, mas para o futuro”, enfatiza.
Entre as ações possíveis estão planejamento urbano adequado, monitoramento constante da erosão e da elevação do nível do mar, e, se necessário, retirada de pessoas em áreas de risco para evitar catástrofes. “É uma solução que deve ser construída a longo prazo, mas com metas a curto prazo para ter algum efeito”, diz. “Não é só o poder público, nem só a população. Tem que ser uma união de todos”, completa.
A erosão costeira é um processo em que o mar avança sobre a terra firme, provocando o recuo da faixa de areia e afetando moradias, comércios e ecossistemas. Ela pode ocorrer de forma crônica — ao longo de anos ou décadas — ou de maneira aguda, em episódios rápidos e intensos, geralmente causados por tempestades e ressacas.